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Comecei a correr e a depressão ficou para trás

A atividade física me ajudou a emagrecer, recuperou minha autoestima e trouxe a alegria de volta para minha vida

Gastando o tênisPor
Gastando o tênis
remédio contra a depressão

O esporte transformou a vida de Ludmila

Hoje, posso afirmar que a corrida me trouxe a alegria de volta. Reconhecer que temos um problema e precisamos de ajuda não é uma tarefa tão fácil quanto parece. Mas é o primeiro passo para vencer todos os tormentos, enfrentar os obstáculos da vida e vencer. Correr me possibilitou isso.

Quando o Álvaro tinha nove meses, descobri que esperava outro filho. Algumas semanas depois, outra descoberta. Meu bebê não tinha mais batimentos cardíacos. Sofri um aborto espontâneo. Entre a culpa e o vazio pela perda, pensei: vou superar e seguir. Quatro meses depois um novo baque. Uma fatalidade levou nossa cachorra, a primeira filha. Belinha foi minha companheira, estava sempre ao lado do Álvaro, eram inseparáveis. Também vou superar isso, foi o que pensei outra vez.

Guardei os sentimentos dessas perdas comigo. Falar era muito dolorido. Só que eu não estava bem e encontrava alívio na comida. Já tinha ganhado quase 10 kg durante a amamentação e o ponteiro da balança continuou subindo. Deixei de tirar fotos de corpo inteiro e vivia no ortopedista, por causa de dores na coluna. Comecei a me afastar dos amigos. Parecia que a vida e tudo ao meu redor estavam sem cor. Sabia que precisa me mover, mas não tinha coragem. Sempre adiava a decisão e colocava muitos empecilhos para fazer qualquer tipo de atividade física.

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VOLTA POR CIMA

A força que precisava para começar a correr veio do meu terapeuta. Não esqueço quando ele me disse: “faça algo por você”. Eu só precisava dar o primeiro passo. Lembro que um dia estava com o Álvaro no colo e precisei voltar a pé para casa. Foram uns 200 metros de uma subida sofrida. Fiquei sem fôlego, tive de parar umas quatro vezes. Estava na hora de mudar!

Convidei meus colegas de trabalho – que também passavam por seus tormentos – para entrar em um grupo de corrida. A reposta foi rápida: “Vamos”. Isso me estimulou muito. No início, um dava força para o outro. Trabalhava até às 18h, ia para casa, me trocava numa velocidade alucinante, deixava o Álvaro com a avó, a tia ou a babá, e seguia para treinar numa cidade vizinha. Só voltava a ver meu filho às 22h. Tinha que valer a pena, né?

Na segunda aula na assessoria, chorei baixinho, sozinha. Havia tempo que não fazia algo por mim, e para mim. Eu estava reagindo! Claro que foi complicado no início. Tinha vergonha do meu corpo. Pesava 94 kg. Precisei perder 10 kg para ser liberada para correr. Mas estava tão focada que, em 40 dias, emagreci 11 kg. Finalmente eu podia ser uma corredora, e não parei mais!

CADA VEZ MAIS LONGE

Voltei a chorar quando consegui correr 4 km sem caminhar. E foi a mesma coisa ao fazer 8 km, 15 km, 18 km… Minha percepção da vida mudou. Tinha recuperado a autoestima. A angústia, a tristeza e a falta de vontade ficaram para trás.

Já estou no grupo de corrida há mais de um ano. Fiz novos amigos, rodei muitos quilômetros, completei duas meias maratonas e estou me preparando para a terceira. No final do ano passado, realizei o sonho de correr a São Silvestre. Foi minha glória. Tenho uma vida diferente hoje em dia. Em casa, respiramos esporte. Fez bem para mim, contaminou o Murillo, minha irmã e vários amigos.

Se é batalha vencida? Não, não é. Luto diariamente contra a balança. E sinto que será para a vida toda. Aquela angústia? Dizem que ela sempre fica à espreita, só esperando um momento de agir novamenta. Mas não deixo ela me pegar e a corrida tem papel fundamental nisso.

Sim, correr é meu remédio contra a depressão. O esporte me livra dos sintomas desse mal. É a minha cura. É onde me sinto viva, capaz, relaxada, feliz. E isso irradia em todos os outros aspectos da vida. Ainda tenho muitos quilômetros para rodar e sonhar. Em 2018, quero subir os 25 km da Mizuno Uphill Marathon, na Serra do Rio do Rastro (SC). Se não rolar? Tudo bem. Ainda há uma vida inteira para fazer isso. Não estou com pressa.

SEMPRE EM FRENTE

O mais incrível é que até hoje a corrida me emociona. Gosto de assistir às provas. De ver a expressão das pessoas. Muitos também estão vencendo seus medos e dificuldades. Testando seus limites. Tem muitas histórias de superação ali. Histórias talvez como a minha, e eu digo: mesmo que pareça difícil, olhe para a frente e corra. Corra para a vida, corra por você. Vá deixando a carga pesada pelo caminho e continue sempre em frente.

Uma vez ouvi que “pedras que rolam não criam limo”. Encaixa-se perfeitamente na minha vida.