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Minha maior maratona

O jornalista Érico Aires acaba de realizar o sonho de ter um filho. Agora, o pai corredor sente na pele a dificuldade de encaixar os treinos em sua rotina

Erico AiresPor
Erico Aires

Maior maratona

Num telefonema, tudo mudou. Foram 18 meses entre a primeira ida ao fórum, a burocracia de papéis, entrevistas, vistorias a minha casa até o dia em que na tela do celular apareceu a chamada “Vara da infância, ATENDA!” (foi assim que gravei o telefone deles na minha agenda). Larguei tudo e parti para a corrida mais importante da minha vida: a para conhecer meu filho. Esse um ano e meio de espera pode parecer pouco, mas comecei a me tornar pai há muito tempo. A decisão de dar entrada no processo de adoção só foi tomada depois  de muita reflexão e amadurecimento.

Sou um pai solteiro e a chegada de um garotinho de 2 anos e 11 meses não é uma coisa simples. Mesmo já vivendo numa casa fora dos padrões para um cara solteiro com 40 anos, muitas mudanças e ajustes tiveram de ser feitos num pace alucinante. O novo papai aqui não tinha nada preparado. Muito disso porque as pessoas que vão adotar uma criança recebem orientações para não fazer na antes. É um jeito de evitar frustração com a demora nas filas do processo. Pois eu segui a recomendação direitinho e não tinha nada: da rede de proteção nas janelas aos talheres infantis; das roupas ao material de higiene pessoal; do enxoval ao médico pediatra de confiança. Eu não tinha nada… Nem sequer sabia que existia uma santa galinha chamada pintadinha.

Pai corredor

Num passe de mágica, o meu tempo virou o tempo dele e os treinos de corrida, a musculação, o trabalho, as séries na TV e o dinheiro foram dragados para um mundo em que eu só pensava sobre qual escola ensina os valores que acredito, quais passeios são legais, o que está escrito nesse rótulo de letrinhas tão pequenas, porque tudo é tão caro, qual será o futuro desse planeta que ele vai crescer…

No calendário, a Meia-maratona Internacional do Rio de Janeiro foi se aproximando na medida em que meus treinos cederam lugar para a paternidade. Logo, descobri que não estava sozinho nesse endurace de pais e mães que são corredores. Quem me libertou da culpa de perder os treinos foram justamente os atletas da Turma da Zona Norte. “O negócio é priorizar as crianças, sem perder o foco na nossa própria saúde. Tudo bem deixar de cumprir a planilha vez ou outra. Nosso maior prêmio é a medalha na formação dos pequenos”, contou Gabrielle Ono, mãe de duas meninas lindas, uma com seis e outra com sete anos.

Para dar conta dos treinos e das necessidades das meninas, a mamãe-corredora criou um sistema bem azeitado. O jantar da semana é todo adiantado no domingo. De segunda à sexta, Gabrielle recebe as meninas da escola, ajeita o jantar, o banho das pequenas e coloca a turma para resolver as lições de casa. Então, deixa as crianças com a vovó para ir correr. “Quando chego, ainda tiro dúvidas das tarefas e as coloco para dormir!”.

Sem filhos, a corredora Adriana Barrochello é tia de duas garotas e lembra que ter pais praticando atividades esportivas é um belo incentivo para os pequenos se exercitarem também. “As meninas sempre me acompanham no ambiente das provas, se encantam com as medalhas e com o espírito de conquista. Recentemente, a Gabi, com 12 anos, ganhou uma medalha na maratona de matemática da escola e veio me mostrar com maior orgulho. Vi aí que o esporte atravessa muitas fronteiras além das pistas de corrida.”

Resumo de tudo, perdi a meia do Rio, mas ganhei na maratona da vida! Tudo está se ajustando e vai dar certo. Mês que vem, eu e ele iremos juntos para Brasília correr a ASICS Golden Run, minha primeira prova como pai.