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O pesadelo das lesões

Há quase um ano, a dor virou minha companheira de corrida, e o segredo para não desanimar é sempre contar com o apoio de especialistas

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Gastando o tênis

lesões na corrida

Depois que você começa a correr, percebe que as dores vão acompanhá-lo diariamente. É normal sentir os músculos das pernas “reclamando” depois daquele longão casca grossa, de um treino intervalado mais puxado ou após dar tudo de si em uma prova alvo. Com o tempo, os atletas conseguem conviver bem com essas dores. Comigo não foi diferente. O problema é que tive outros pesadelos no caminho.

Comecei a correr em outubro do ano passado. Já estava cansando de acompanhar a Ludmila nas provas e ficar esperando do lado de fora. Participei da minha primeira corrida e, em sequência, procurei uma assessoria esportiva para treinar. Como morava em São Paulo e a sede da assessoria é no sul de Minas Gerais, o educador físico me acompanhava à distância. O que funcionou perfeitamente para mim. Porém, depois de algumas semanas, senti uma dor forte no joelho esquerdo durante um treino e fui direto ao hospital.

Como o raio-x não apontou nada, o médico me liberou e orientou que procurasse um especialista. A recomendação foi: repouso total até ter um diagnostico preciso. Na semana seguinte, lá estava eu no consultório do ortopedista. Ele pediu uma ressonância e mais repouso. O resultado saiu uma semana depois, e eu já tinha retorno com o especialista agendado para o mesmo dia (apenas uma hora depois de pegar o exame, para ser mais preciso). Curioso que sou, abri o envelope ainda no carro.

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O SUSTO

Não foi necessário ser especialista para saber que a coisa não era simples. Estava escrito: “Ruptura parcial do ligamento cruzado anterior. Há fratura envolvendo o platô tibial medial”. Ferrou, pensei! Saí do consultório destruído. O primeiro diagnóstico apontava para um procedimento cirúrgico, com expectativa de oito a dez meses de recuperação. Desespero! Tinha acabado de interromper o sedentarismo de anos, estava apaixonado pela corrida e precisaria operar.

Liguei imediatamente para um grande amigo, especialista em joelhos. Ele me recebeu, examinou as imagens, fez todos os testes e foi categórico: “Não vou operá-lo”. Segundo o médico, a ruptura era antiga e eu já estava convivendo bem com ela. A fratura era tratável com medicamentos e repouso. E assim foi feito. Do susto de uma possível cirurgia à tranquilidade de que voltaria em breve.

O RETORNO

Voltei aos treinos disposto a não sofrer mais com lesões. Isso coincidiu com minha mudança de cidade e com a possibilidade de treinar presencialmente com meu grupo de corrida. Ganhei confiança, perdi peso, os músculos ficaram mais fortes e comecei a correr cada vez mais rápido. Foi nesse momento que cometi o meu maior erro no esporte. O excesso de confiança e gana por corridas me fizeram abraçar o mundo em abril. Em quatro semanas, participei de cinco provas. Era RP atrás de RP. No fim do mês, senti uma fisgada na coxa que quase me fez cair depois da linha de chegada. E, desde então, venho sofrendo com as temidas lesões, menores ou maiores.

Ainda assim, consegui correr a minha primeira meia maratona, em junho. Nesse caso, o treinamento me deu um excelente suporte para chegar bem fisicamente na prova. Sofri com o cansaço, mas os músculos passaram imunes aos meus primeiros 21,097 km. Mesmo assim, não me sentia 100%. Uma canelite aqui, um desconforto na coxa ali. Gelo e muita massagem entraram na rotina. Veio a segunda meia maratona. Mais uma vez, passei tranquilo pela prova.

Na semana seguinte, senti uma forte dor na virilha direita. Retornei à saga de trata aqui, dói ali. Fiquei realmente preocupado. Já estava bem perto da Meia Internacional do Rio de Janeiro, que sempre foi um grande sonho. Fortalecimento, fisioterapia, gelo, massagem… Em um dia a dor sumia, no outro aparecia mais forte. Já tinha até esquecido como era caminhar sem mancar.

Chegou o final de semana da prova no Rio. Apesar de não sentir mais dor, embarquei com um medo terrível de sofrer algo durante a competição. Acordei bem no domingo da corrida. Feliz, disposto e preparado. Psicologicamente e fisicamente. Era a primeira meia maratona que ia correr inteira ao lado da Ludmila. Estava animado com a possibilidade de passarmos a linha de chegada juntos. Largamos! Os primeiros 5K foram sem dor. Deixamos os 10K sem problema. Estava muito feliz. Curtindo a paisagem, interagindo com os amigos que nos reconheciam. Pela primeira vez podia sentir a vibe da corrida.

lesões na corrida

UM NOVO PESADELO

Saímos de Copacabana e entramos no túnel que liga ao Botafogo. Meu pesadelo retornou nesse momento. Acredito que estávamos no quilômetro 13 quando senti o joelho esquerdo, o mesmo do ano passado. Agora, a dor era em outro ponto. Um quilômetro depois já não conseguia mais correr. Só que não ia desistir. Não mesmo.

Pedi para Ludmila continuar e comecei a caminhar. Foram seis quilômetros andando. Com certeza, a minha maior experiência na corrida. Encontrei no caminho muitas pessoas que me incentivavam, tentavam me animar. Alguns pararam do meu lado e quiseram me acompanhar até o final. Caminhei por 1h15min até cruzar a linha de chegada e realizar meu sonho de completar a Meia do Rio.

A dor persistiu depois da prova. Subir e descer escada era impossível. Fui para o médico. Depois de uma série de avaliações, o diagnóstico: distensão no ligamento colateral medial. Três semanas de repouso absoluto, injeção e pomada anti-inflamatória. Dias intermináveis até voltar a treinar. No retorno, sofri para fazer três quilômetros, mas fiquei feliz por poder recomeçar. Hoje, já estou gastando o tênis de novo, acumulando quilômetros, e me preparando para realizar dois outros sonhos: a Volta Internacional da Pampulha e a São Silvestre.

Não quero mais sofrer com dores e lesões. Pensando nisso, também enfrentei a barreira que tinha com a musculação e me matriculei na academia. Agora, intercalo o fortalecimento com os treinos da corrida. E, depois de tudo isso, só posso dizer uma coisa: não desista. Vale a pena!

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Segundo a médica do esporte Simony Chiaperini, é fundamental pensar em três pilares para a prevenção de lesões: fortalecimento muscular; flexibilidade articular; e alongamento. “É preciso trabalhar os músculos e gerar hipertrofia (crescimento) para que eles tenham condições de sustentar o corpo. Já a flexibilidade vai evitar a rigidez articular e tensões que predispõem a lesões. Já o alongamento desfaz nódulos contráteis de músculos e ativa a circulação, o que ajuda a remover o excesso de fatores inflamatórios de um exercício de longa duração ou alta intensidade”, afirma Simony. A especialista reforça que é importante criar estratégias de acordo com a necessidade do atleta, que pode variar de acordo com os objetivos e histórico de cada corredor.