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Tem limite para pipoca!

Além de atrapalhar os atletas inscritos, o corredor sem número de peito pode colocar em risco a própria saúde

Erico AiresPor
Erico Aires

Pipocas na corrida

Quem me conhece sabe que sou um verdadeiro adorador de pipoca. Inclusive, sou pipoqueiro profissional – com direito a panela boa e insumos para poder fazer pipoca doce cor de rosa igual a da porta da igreja. Porém, quando o assunto são as corridas de rua, a deliciosa pipoquinha fica bem amarga.

Não, esse post não é sobre a delicia culinária feita do milho. Pipoca, no mundo da corrida, como você deve saber, é aquela pessoa que quer participar da festa, mesmo sem ter pagado um real por ela – semelhante a muitos foliões no carnaval de Salvador.

Bom, e antes que alguém atire em mim o primeiro copo d’água, quero ressaltar que sou superfavorável a democratização da corrida de rua. Mas, infelizmente, a presença dos corredores pipoca tem atrapalhado muito o andamento das provas para os atletas devidamente inscritos. Explico: o papel da empresa organizadora vai muito além de montar um pórtico de largada/chegada, fechar as ruas e colocar uns cones e placas de quilometragem no percurso. Ela precisa criar pontos de hidratação, de alimentação e de atendimento médico, além de áreas de acesso, de descanso na arena, banheiros, pontos de apoio e outras coisas que garante conforto e segurança para as pessoas.

Tudo isso é projetado conforme o número de inscritos na corrida. Sim, a quantidade de baias de água em cada posto de hidratação, o tamanho do curral de largada, a dispersão da chegada, os retornos e afunilamentos no trajeto, tudo isso é calculado de acordo com os participantes confirmados no evento. Se a estrutura for montada para 3.000 atletas e aparecerem 4.000, pode rolar um aperto na pista, trânsito de corredores. Aí, você que pagou a inscrição não vai conseguir manter o ritmo planejado e bater seu recorde, por exemplo, por causa do corredor pipoca. Sem falar em problemas maiores, como ficar sem água, medalha, lanche etc.

Com o crescimento dos pipocas, algumas corridas estão enfrentando problemas graves. Um caso que se tornou clássico foi o da edição de 2016 da tradicional São Silvestre. Segundo os organizadores, a corrida teve quase 40% de participantes sem inscrição. Por conta disso, muita gente ficou sem água durante o percurso.

Não dá para ignorar a importância da estrutura oferecida pela organização para a saúde de um atleta, já falei disso por aqui. E quando uma pessoa entra na pista como corredor pipoca, está abrindo mão de tudo isso. Minha última prova, a Rio City Half Marathon, foi muito difícil para mim. Pouco treinamento, uma virose mal curada e o calor minaram minha resistência. Eu teria quebrado no km 10 se não houvesse um posto de alimentação onde peguei duas bananas. Além disso, ao cruzar a linha de chegada, fui interceptado por um paramédico, que identificou no meu semblante que eu não estava muito bem. No posto médico, com uma equipe supercompetente, fui diagnosticado com pressão alterada e temperatura elevada. Recebi medicação, colocaram gelo no meu corpo e fui bem acolhido e cuidado. Se estivesse na pipoca, como seria tudo isso? Quando o assunto é corrida, não tenho dúvidas que é melhor deixar a pipoquinha para o cinema. Eita delícia!