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“Um lugar bem legal para papai correr”

Treinar ficou mais complicado depois que Érico se tornou pai solteiro, mas ele fica emocionado em saber que o pequeno João está querendo ajudar

Erico AiresPor
Erico Aires

papai correr

“Papaiê, quero ir para a lua!” Disse o João ao ver a lua que surgia no céu quando voltávamos da escola. Tu vais fazer o quê lá na lua, meu filho? “Vou explorar! Vou procurar um lugar bem legal para você correr!”

Esse diálogo, que parece ter surgido da cabeça de um redator de filme da Disney, aconteceu há pouco tempo e me deixou muito emocionado. Não pela perspectiva de ter um filho com pretensões de desbravador do espaço sideral, mas pelo fato de ele ter incluído o esporte que escolhi entre as prioridades da sua busca. João, dentro da fantasia lúdica do universo infantil, tinha acabado de dizer “papai te amo, te entendo e te respeito!” E isso é o melhor e mais valioso presente do Dia dos Pais que eu poderia receber.

Sim, esse é meu primeiro Dia dos Pais desde que virei pai. Passei os últimos 25 anos desconstruindo, de certa maneira, o valor daquilo que esse dia representa. Sem meu pai desde os 16 anos, ser bombardeado na data comemorativa pela lembrança dele e a falta que ele faz nunca foi muito legal. Eu nem estava pensando em tudo isso até que começaram a surgir as propagandas na TV e recebi algumas ligações para entrevistas para falar justamente sobre isso, a minha experiência como pai.

Ser pai e ser corredor não é tarefa fácil. Ser pai solteiro e ter uma maratona como objetivo é praticamente algo inalcançável. Inclusive, deveria existir uma categoria especial para pais e mães solteiros em todas as corridas, com pace livre, sem cobranças, só diversão! Infelizmente, não é assim.

A chegada dos filhos exige uma grande organização para treinos e provas. Não tem como sair de casa às 5h30 para correr uma meia maratona e deixar seu filho dormindo sozinho, ou sem ter a certeza de que tudo e todos estarão bem na volta. Juntar as coisas foi o jeito que achei para continuar correndo.

João, por exemplo, estava lá, me esperando na chegada da última SP City Half Marathon – e já tem passagens compradas para a Brasília City Half Marathon, em novembro. Nesse final de semana, fiz parte de um grande grupo de pais corredores e filhos que participaram do desafio The Rock, uma corrida tinhosa, casca de ferida, pelas montanhas de São Roque, aqui próximo da capital paulista.

João achou simplesmente o máximo ver o papai e a tia Fernanda chegarem completamente imundos e mortos depois dos 12 km percorridos (e não corridos) no sobe e desce das estradas de terra e dos vinhedos por onde a prova passou. O clima era absolutamente familiar: muitos pais, mães, avôs e até os cachorros participando do evento.

Após colocarmos mais uma medalha no peito, começamos a segunda parte do desafio, dar conta da energia das crianças que ainda não participam de corridas, mas adoram correr, adoram o clima da disputa e adoram não deixar os papais ficarem parados.

Resumo de tudo: minha corrida mudou, meu calendário de provas mudou e minha vida mudou, mas agora todos os dias são Dias dos Pais. E João nem precisa ir até a lua para encontrar um lugar bem legal para o papaiê correr. Basta ele estar na linha de chegada, que a corrida será sempre muito legal!