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A lembrança inesquecível da Comrades 2019

O ultramaratonista Cesar Moro conta como foi sua terceira vez em uma das corridas mais famosas do mundo

Por
Fernanda Beck
Multidão na largada da Comrades 2019

A largada da Comrades 2019

*Por Cesar Moro

Manhã da largada

“São quase 3 horas da manhã do dia 9 de junho de 2019 quando acordo, um pouco antes do despertador. O café no hotel abriria às 3h, e 4h15 era o horário marcado para começar a caminhada até a largada. Nos posicionamos nas baias de largada e minutos antes das 5h30 teve início o hino da África do Sul, onde estávamos. Logo em seguida foi entoada a música Shosholoza. Por ser essa a minha terceira participação na corrida, não achei que me emocionaria tanto ao ouvir a canção que embala as torcidas sul-africanas em um chamado para ‘seguir em frente’. Mas quando mais de 16 mil vozes começam a soar à sua volta é simplesmente impossível não se emocionar. Naquele momento os corredores já têm uma ideia da força dessa ultramaratona  e de tudo o que ela representa para os sul-africanos.

Cesar, à direita, durante a Comrades 2019

Exatamente às 5h30, logo após o canto do galo e o tiro de revólver, foi dada a largada para mais uma edição da Comrades, famosa ultramaratona que esse ano faria o trajeto de 87 km desde Durban, cidade no litoral do país, até Pietermaritzburg, nas montanhas”.

Performance na prova

“Cruzei a linha de chegada 10 horas e 48 minutos depois da largada. Foi uma festa. Todo o esforço despendido nas diversas subidas do Vale das Mil Colinas é recompensado pela alegria do encontro e reencontro com a família e os amigos – que estavam à minha espera –, além de corredores com os quais compartilhei os quilômetros do percurso. Apesar de ter sido uma ótima corrida, acabei gastando nela mais tempo do que havia planejado.

Corridas longas têm disso.
Muitas vezes um detalhe
que em pouco impactaria uma
prova curta é potencializado e
pode dar muito trabalho. 

Agora, passadas algumas semanas da prova, tento fazer uma revisão e um balanço de minha performance para identificar o que exatamente aconteceu e como posso melhorar.

Revendo a experiência

“Lembro que dois dias antes da prova tivemos chuva, vento e frio, o que trouxe certa apreensão. Milagrosamente, no dia da prova o clima melhorou. Nada de chuva nem frio e, contrariando as previsões e atendendo às preces daqueles que mantiveram a fé até o último instante, o tempo ficou bem agradável.

Lembrei, também, de ver corredores que chegaram confiantes em Durban e que, depois de conhecer o percurso, passaram a temer não completarem a prova e começaram a rever suas estratégias. Ali vi nascer o respeito desses corredores por esta que é a rainha das ultramaratonas.

Lembrei de estar com amigos que, mesmo machucados e com poucas possibilidades de completar o percurso, se apresentaram nas baias de largada, na tentativa de correr até onde fosse possível. O nome disso é coragem, e ela só existe quando há também a possibilidade de insucesso.

Alguns desses amigos, contra todas as chances e para surpresa de todos, conseguiram não só completar a prova, mas fazer disso uma aula de resiliência e determinação.

Trabalho social 

“Falando em resiliência, é impossível não lembrar das crianças do orfanato Ethembeni School, uma das entidades sociais que a Comrades apoia. A organização da corrida oferece um passeio de ônibus para conhecer o percurso nos dias que antecedem o evento e uma das paradas é nesse orfanato. Além do apoio da Comrades, é tradição ali mesmo fazermos doações à entidade.

Lá as crianças nos recebem com sorrisos no rosto e uma série de apresentações com música e dança. Esses mesmos sorrisos estavam presentes no dia da corrida. Como o orfanato fica no percurso, quando passamos por ele, as crianças estavam todas na estrada para cumprimentar os atletas e desejar boa sorte. Não preciso fazer esforço para lembrar de forma vívida cada um daqueles rostinhos, com olhos brilhantes, observando atentamente o mar de corredores que passava na frente deles.”

Calor e cordialidade do povo local

“Lembro dos espectadores que encontramos pelo caminho e que nos chamavam pelo nome, escrito em nossos números de peito, ou que gritavam ‘Brasil!’ em meio a palavras de apoio. Estranhos que ofereciam comida, bebida, um local de descanso e se desdobravam para apoiar os corredores. Vi famílias inteiras em barracas à beira da estrada fornecendo apoio. Crianças em diversos pontos do caminho com as mãos estendidas, esperando um cumprimento. Senti a generosidade daquele povo e me espantei com o amor que eles têm por essa corrida.

Cesar Moro ao concluir a Comrades 2019

Amizades na Comrades

“Uma de minhas memórias mais queridas é dos amigos corredores que encontrei pelo caminho. Às vezes correndo quilômetros juntos, alguns eu ultrapassei, outros me ultrapassaram; mas sempre, sem exceção, trocando palavras de apoio e incentivo. Isso se chama companheirismo.

Alguns amigos tiveram um desempenho espetacular, se esforçando até o limite do corpo e da mente, coroando o resultado de semanas de treino e dedicação com uma conquista da qual se lembrarão por muito tempo. Isso se chama foco, disciplina e determinação.

Também ‘convenci’ alguns amigos a fazerem a Comrades em 2019. Nos treinos todos diziam: ‘Não sei como entrei nessa’ ou ‘Só vou fazer uma vez’ ou ‘Esse negócio não é para mim’. Mesmo depois da prova continuaram repetindo: ‘Isso realmente não é para mim, não faço mais’ e ‘Nunca senti isso no meu corpo’ ou ‘Em certo ponto achei que ia morrer’.

É nesse momento da minha retrospectiva que começo a rir sozinho, pois ontem mesmo todos esses meus amigos corredores já tinham feito suas reservas de hotel para a Comrades de 2020.

Cesar (à dir.) com amigos que também completaram a Comrades 2019

Balanço final

“Tenho certeza de que o que me marcou na edição de 2019 da Comrades não foi o meu tempo ou a estratégia de prova. Foram a força, a fé, o respeito, a coragem, a resiliência, a generosidade, o amor, o companheirismo, a determinação, o foco, a disciplina, a determinação e a alegria que experimentei direta ou indiretamente nessa experiência de vida chamada Comrades, que vai muito além de uma simples corrida.

Nos vemos na Comrades em 2020.”