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Minha terceira vez na Comrades, a maior ultramaratona do mundo

Executivo Cesar Moro conta sobre sua primeira experiência na prova, e fala dos ensinamentos que levou dela para a vida

Redação WRunPor
Redação WRun

Ultramaratona de Comrades, na África do Sul

 

Diretor executivo de uma empresa de desenvolvimento de software, o paranaense Cesar Fernando Moro, 48, embarcou na última terça (04) rumo à África do Sul, onde participará pela terceira vez da Comrades, uma das ultramaratonas mais famosas do planeta. A prova vai de Durban a Pietermaritzburg, cobrindo aproximadamente 87 km.

Aqui, Cesar fala sobre sua preparação para a prova, conta como foi participar da corrida pela primeira vez, e reflete sobre os paralelos que podem ser traçados entre uma corrida e a vida. Confira:

 

No dia 9 de junho de 2019, às 5:30 da manhã na cidade de Durban, na Africa do Sul, darei início à minha terceira participação na rainha das ultramaratonas, a Comrades. A Comrades é sem dúvida a maior e mais celebrada ultramaratona do mundo. Criada em 1921 como uma forma viva de prestar homenagem aos combatentes e camaradas (daí o nome) que lutaram na primeira guerra mundial, hoje ela é um evento gigantesco que mobiliza toda a África do Sul.

Seja participando entre os seus mais de 20.000 corredores, seja participando como voluntário, ou acompanhando a corrida pelas ruas ou pela televisão, os sul-africanos de uma forma ou de outra vivenciam a Comrades, de maneira visceral. Ela é uma prova reverenciada no país, e é transmitida ao vivo durante todas as suas 12 horas de duração, que é o tempo que os seus participantes têm para finalizar os cerca de 90 km da corrida.

O ultramaratonista Cesar Moro visitando o “Wall of Honour” com o nome dos corredores que já completaram a Comrades, na África do Sul, em 2017

Primeira vez

Minha primeira participação foi em 2016. Eu, que vinha do mundo das maratonas, achava surreal a ideia de dobrar a distância de uma daquelas provas.

Lembro que em 2015, quando terminava a maratona da Disney, fiz uma avaliação das minhas condições, e, percebendo o estado de falência das minhas pernas, pensei “Meu Deus, como é possível correr o equivalente a duas maratonas?! Isso é coisa de louco.”

Um ano depois fui recrutado para acompanhar um amigo corredor que queria comemorar seus 70 anos correndo a Comrades. Isso aconteceu de última hora e apesar de toda minha argumentação para postergarmos essa aventura, fui vencido e convencido a usar os 50 dias que nos separavam da prova para me preparar física e psicologicamente para acompanhá-lo na corrida.

Foi simplesmente a prova mais difícil que eu já fiz até hoje. A falta de preparo cobrou um preço caro, mas apesar de ter completado a prova totalmente exausto, o meu espírito cresceu em força e determinação, e fez da Comrades um divisor de águas na minha vida de corredor.

Cesar e um amigo após completar a Comrades em 2017

Nova tentativa

Três anos depois da minha estreia, me preparo novamente para cruzar o vale das mil montanhas que separam as cidades de Durban (costeira) de Pietermaritzburg (nas montanhas). Diferentemente de 2016, agora já tenho mais bagagem em ultramaratonas (corri a própria Comrades novamente em 2017) e alterei meus treinos para focar nessas distâncias maiores. O que antes parecia loucura tornou-se um caminho.

Preparação

Uma vez seduzido por essa modalidade de esporte vem a pergunta: como se preparar para uma ultramaratona? Como se preparar para correr 90 kms, 140 kms, 240 kms?

Depois de ler alguns livros sobre atletas de longas distâncias, fui buscar um treinador especializado em ultramaratonas. Hoje treino com Valmir Nunes, o maior campeão de ultramaratonas do Brasil e um dos maiores do mundo.

Sob a orientação dele há aproximadamente um ano e meio, comecei a reaprender a correr. Meus treinos mudaram o foco para resistência ao invés de velocidade. Os treinos passaram a respeitar muito mais a recuperação do corpo e todo treino passou a ter o ritmo controlado. Os batimentos cardíacos passaram a ser uma medida importante para determinar o pace dos treinos e da prova.

Cesar e um grupo de amigos visitando o percurso da Comrades antes da prova em 2017

Diferentemente do que muitos imaginam, o volume semanal não é muito grande e fica em torno de 70 km. Muitos amigos fazem muito mais treinando para maratonas.

Como resultado de um treino focado em longas distâncias, me pego me sentindo bem próximo ao final de uma prova de 140 kms. Me surpreendo me sentindo animado em imprimir um ritmo mais forte depois de ter rodado mais de 200 km – situações essas que antes me pareciam impossíveis.

Maratona e crescimento

A busca pela superação dos seus limites encerra-se, em última instância, na busca pela excelência do ser humano. Não existe crescimento real dentro da zona de conforto. É somente ao enfrentar seus limites que você é compelido a tornar-se mais forte, desenvolver mais habilidades, moldar a sua realidade e assim tornar-se capaz de sobrepujar as dificuldades que te separam de uma versão melhorada de você mesmo. Isso se aplica a tudo na vida. Se aplica ao esporte, aos relacionamentos, ao trabalho, ao dia a dia, aos projetos de longo prazo, etc.

Nesse caminho, a ultramaratona se apresenta como o cenário ideal para enfrentar dificuldades, desafiar limites e trilhar a “Jornada do Herói” como apresentada pelo antropólogo Joseph Campbell em seus livros.

Muitas vezes os desafios são insanos, a ultramaratona vai te colocar de joelhos, vai exigir tudo o que você tiver para oferecer. Entretanto, uma vez enfrentada de forma sincera e honesta, a ultramaratona te oferecerá como recompensa muito mais do você empenhou no seu esforço para sobrepujá-la. É justamente essa realização, esse crescimento da jornada, que torna algumas ultramaratonas tão únicas e necessárias na vida de alguns corredores.

Aprendi que uma ultramaratona é muito desgastante, mas o treino não necessariamente precisa ser.

Cabe aqui uma analogia do esporte com a vida. Assim como o treino de ultramaratona, o nosso dia a dia precisa ser de qualidade, precisa ser bom e nos deixar mais fortes para enfrentar os momentos de dificuldade que encontraremos na vida e nas provas. Se ele for cansativo demais, ruim, estaremos muito cansados quando chegarmos nas provas ou enfrentarmos os problemas reais.

Assim, sendo uma metáfora tão perfeita da vida, quando me perguntam porque correr ultramaratonas, o que me vem à mente é a dúvida: ‘Como não corrê-las?’.