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The Finisher

“A primeira meia maratona a gente nunca esquece”

Depois de perder um rim, a jornalista Nathalia Fuzaro conta como foi a sua evolução até encarar a W21K

Juliana MesquitaPor
Juliana Mesquita

Foto: Cristiano de Lima/Fotop

Correr 21K era um sonho antigo, desde que peguei gosto pela modalidade há dez anos. Mas, como muita gente, eu achava uma meta inalcançável para “meros mortais”. Se eu sofria para completar cinco quilômetros, como chegaria a 21? Tinha todo um leque de desculpas: era muito “franga”, não tinha tempo para treinar direito, trabalhava muito, não tinha dinheiro para investir em treinador, não conseguiria conciliar tantos treinos com a vida social… Fato é que, quando queremos mesmo algo e abafamos a voz dos nossos sabotadores internos, damos um jeito para tudo! Eu aprendi isso na marra, quando precisei me esforçar para ter minha saúde de volta.

Há dois anos, eu perdi um rim (tive estenose de JUP, um afunilamento do canal da uretra que o fez parar de funcionar). Na cirurgia, tiveram que cortar partes do fígado e do diafragma, e fiquei três dias no hospital. Quando saí, não conseguia falar e nem ficar em pé, porque não tinha fôlego – o diafragma importa, viu? [Risos]. Foram meses até o meu corpo voltar ao normal, mas no caminho desenvolvi resiliência, essa capacidade humana de se recuperar após um trauma, de persistir apesar da dor. Fui treinando, dia após dia, para ficar cada vez mais forte e saudável.

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Um ano e meio depois, virei triatleta – quando a vida me desafia, eu dobro a meta! E nunca esquecerei o que pensei ao cruzar aquela linha de chegada: “eu posso tudo”! Foi o que me encorajou a buscar os 21K. Veja bem, apesar de já correr dez quilômetros com certa frequência, uma meia maratona tem o dobro do volume. Como eu conseguiria chegar lá sem parar com a natação e o ciclismo? E sem aumentar o tempo de treino no dia a dia? Afinal, trabalhar é preciso. Bom, como falei anteriormente, quando queremos MESMO algo, damos um jeito, né? Minha treinadora, Andrea Tognato, fez uma planilha incrível de periodização de treinos para dois meses e foi bem enfática: “Tem que cumprir à risca ou não vai rolar”. E assim o fiz! Hoje, penso que nem foi tão difícil assim. Com um planejamento bem-feito, evoluímos aos poucos e vamos nos tornando mais fortes sem nem perceber. Gradativamente, aumentamos os longões de 12K para 14K, 15K, 18K, com intervalados mais curtos feitos na esteira e treinos contínuos entre eles.

Ao correr a W21K, segui à risca também a recomendação da Andrea de manter o pace em 6:00 até o km 17 e, se sobrasse energia, aí sim daria um sprint final. Até tentei acelerar, mas as pernas estavam pesadas e voltei ao conforto dos meus 10 km/h para acabar a prova sem caminhar. Fiquei muito feliz em concluir a minha primeira meia maratona sem parar, em 2h07! Achei importantíssimo ainda seguir a estratégia de suplementação que a minha nutricionista, Barbara Moraes Gallo, me passou: hidratar quando preciso e comer uma bananinha ou gel nos km 7, 13 e 18.

O engraçado é que, desta vez, o sentimento de empoderamento veio não só ao cruzar a linha de chegada, mas durante toda a prova. A W21K apoiou o Outubro Rosa, campanha que alerta sobre o câncer de mama. Antes de largar, já me emocionei ao ver um grupo de mulheres vestindo uma camiseta com a frase “eu venci”. Nos primeiros quilômetros, me dei conta da proporção: era um mar de mulheres fortes ali correndo, cantando, vibrando e se apoiando, tudo ao mesmo tempo! Estávamos todas muito felizes de correr lado a lado umas das outras. De repente, vejo uma senhora careca me ultrapassando. Que garra! Lembrei que há exatos 23 anos minha irmãzinha caçula, Lili, falecia de câncer e que, antes de partir, ela tinha ganhado um troféu de uma meia maratona do seu médico pela garra com que encarou o tratamento. Bem, ontem foi a minha vez de correr 21K e celebrar a vida – a dela, a minha, as das mulheres que estavam ali ao meu lado e à da minha sobrinha, Lara, que nascerá em março.

*Obrigada, W21K e WRun pela experiência! Nunca esquecerei. <3