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The Finisher

Medo de treinar no frio? Este gaúcho corre só de sunga e é inspiração para muitas pessoas

Conheça a história de Eduardo Viamonte e saiba por que ele começou a fazer exercícios sem roupas pelas ruas de Porto Alegre

Vanessa da RochaPor
Vanessa da Rocha

 

treinar no frio

Fotos: José Raulino

Era só mais uma típica noite do gelado inverno em Porto Alegre (RS). Os termômetros marcavam 4 °C, mas a sensação térmica beirava os -2° C. O minuano, vento forte, constante e cortante que sopra na cidade, obrigava as pessoas que tinham coragem para sair de casa a vestir muitas camadas de roupas. Várias blusas, luva, gorro, manta… Tudo era usado para não “congelar”. Pois foi exatamente nesse cenário, em junho de 2003, que muitos viram pela primeira vez um homem correndo na rua só de sunga.

A cena causou espanto geral. Como alguém era capaz de correr praticamente pelado naquele frio? Algumas pessoas zombaram e outras até xingaram o atleta. Seu nome? Eduardo André Viamonte. Hoje, aos 47 anos, depois de quase uma década e meia seguindo o mesmo hábito, ele já não é visto como maluco. Muito pelo contrário. A “coragem” de Eduardo passou a inspirar as pessoas a buscarem uma vida mais saudável e praticar exercícios.

Como surgiu a ideia
O  “cara da sunga”, como Eduardo é conhecido em Porto Alegre, foi um personagem de construção coletiva que se originou por acaso. Eduardo sempre teve uma vida agitada. Ele é bancário, artista, professor e proprietário de uma escola de idiomas. Mesmo com a rotina intensa, o gaúcho nunca abre mão de correr os seus 20 km diários. Aliás, ele garante que é justamente a corrida que dá energia e saúde para cumprir todas as atividades da agenda.

Um dia, por causa de tantos compromissos, ele acabou esquecendo a roupa de treino. “Minha namorada já estava pronta e eu não quis abrir mão de correr. Então, decidi que iria sem camiseta mesmo,” conta Eduardo. Ele gostou da experiência de treinar assim, e a decisão de retirar a calça veio pouco tempo depois. “Antes, eu usava um calção, mas ele assava a minha pele. Experimentei vários modelos até que um dia minha namorada me emprestou uma malha. Como não machucou, comecei a treinar com shorts de lycra e deu certo. Todo mundo fala que é sunga, mas na verdade é um shorts.”

Apesar de muitos alertarem que o gaúcho poderia ficar doente por correr praticamente nu, ele garante que nunca teve problemas. Na verdade, a atividade física só trouxe mais saúde. “As pessoas diziam que eu ia morrer de pneumonia, mas eu não peguei nem resfriado em todo esse período. Eu tinha mais chance de ficar doente antes, quando permanecia com a roupa molhada de suor.”

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Correr “bomba” o cérebro
Formado em computação, a inquietude de Eduardo o fez partir para uma segunda graduação, dessa vez em psicologia. Durante o curso, ele decidiu se aprofundar na compreensão dos efeitos da corrida no cérebro. O estudo acrescentou mais uma atividade à vida de Eduardo. De uns anos pra cá ele também virou palestrante. O tema da apresentação é Bombando o Cérebro Com a Corrida: Prazer, Neurotransmissores e Produtividade.

Na palestra, o gaúcho fala sobre seu estudo, desenvolvido em parceria com Maurício Marques, doutor em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por meio da neurociência, ele mostra como usa a corrida para potencializar a inteligência, a criatividade, a sexualidade e aumentar a imunidade.

Inspiração e lições para todos os atletas

Com o tempo, Eduardo passou de louco à referência em vida saudável. Sempre que corre, as pessoas o param para tirar fotos e saber o porquê desse hábito tão curioso. Ele decidiu aproveitar a popularidade para divulgar os benefícios da corrida. “Muitas pessoas ficam surpresas quando descobrem que eu não sou atleta profissional, que corro por prazer. Aí, se sentem estimuladas a ter mais disciplina no treino ou até mesmo a sair do sedentarismo.”

Para quem está começando, o gaúcho recomenda visitar um médico e começar aos poucos, com o acompanhamento de um profissional de educação física. Para os que já correm, ele ressalta a importância da regularidade. “É comprovado cientificamente. Se você parar uma semana, já não estará com a mesma motivação quando voltar.”

Associar a corrida ao prazer é a base da filosofia do cara da sunga. São duas horas diárias, num ritmo moderado, que garantem o relaxamento mental para encarar a rotina. Para Eduardo, a experiência de enfrentar o frio e correr praticamente sem roupa pode ajudar até atletas de elite. “O melhor corredor geralmente é o que tem maior capacidade de suportar o sofrimento. Pode parecer contraditório, pois sempre digo que a corrida me traz muito prazer e saúde. Mas o esporte também é esforço, disciplina, superação. É isso que nos leva até o prazer. O esporte gera uma fissura tão grande ninguém consegue parar de treinar.” Então, calce o tênis e siga o exemplo de Eduardo André Viamonte. Você pode até vestir uma roupa se não for tão corajoso – ou louco – quanto ele para treinar no frio só de sunga. Tudo bem. O importante mesmo é correr, sempre.