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The Finisher

Projeto Vida Corrida: como Neide mudou a vida de crianças com o esporte

Neide idealizou e criou o projeto que leva a prática do esporte para crianças e adultos do Capão Redondo, em São Paulo

Lucas ImbimboPor
Lucas Imbimbo
Vida Corrida

Foto: Lucas Imbimbo

Sabe aquelas histórias que mexem com a gente e que parecem roteiro de cinema? A de Marineide Santos Silva, de 58 anos, é uma delas. Nascida em Porto Seguro, Bahia, Neide cresceu no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, e lá organiza desde 1999 o Vida Corrida, projeto social que leva o esporte para moradores do bairro.

A Neide

Colocada para adoção quando criança, Neide veio para São Paulo com seis anos. Mesmo pequena, ela já trabalhava com as tarefas de casa e em uma oficina de costura na capital paulista. Aos 10 anos, Neide passou a frequentar a escola, que quatro anos depois, em 1974, lhe apresentaria uma paixão que se tornaria eterna: a corrida.

“Comecei a fazer aula de educação física com quatorze anos. Para mim era só diversão. Uma vez, fui escolhida para substituir uma aluna no campeonato de corrida da escola. Foi assim que conheci o esporte”, conta Neide.

Vida Corrida

“Para mim, a corrida significa liberdade. É como uma necessidade fisiológica”. (Foto: Lucas Imbimbo)

Depois disso, a corrida  passou a ter mais importância em sua vida. Com incentivos do treinador, ela passou a praticar mais e a participar de outros campeonatos escolares. Em 1975, viu pela primeira vez mulheres correndo a São Silvestre. “Aquilo me fascinou”, diz. Sua estreia na competição só viria 5 anos depois, em 1980.

Com 16 anos, Neide encontrou sua família biológica e foi morar no Capão Redondo, região periférica da capital paulista. Com 17, ela já estava casada e com 18 teve seu primeiro filho. Infelizmente, depois de um ano e oito meses de casamento seu marido morreu, vítima da violência paulistana. Para se livrar da dor, ela continuou correndo. “A corrida me faz esquecer do mundo. Me deixa longe de todas as coisas ruins”, diz.

Que comecem os treinos!

Muitas mulheres vendo Neide correndo pelas ruas da comunidade também tiveram vontade de começar. “Nessa época, as mulheres não praticavam esporte porque tinham medo. Só os homens tinham acesso à atividade física”. Assim, Neide começou a treinar as mulheres do Capão Redondo. Nasceu então a Equipe de Corrida do Parque Santo Dias.

Vida Corrida

Inicialmente, Neide dava aula apenas para as mulheres da comunidade. (Foto: Lucas Imbimbo)

Durante esse período, seu filho pedia à mãe que treinasse também as crianças da comunidade. Mas, como Neide continuava trabalhando como costureira e realizava treinos para as mulheres aos sábados, não tinha tempo hábil e adiou a ideia.

Mas novamente a violência veio para virar sua vida do avesso: seu filho foi assassinado durante um assalto. Depois da perda, ela decidiu realizar o desejo do filho e levar esporte para as crianças do Capão.

Neide teve que abrir mão de quase metade do salário para conseguir realizar as aulas durante a semana. “Foi a decisão mais acertada da minha vida”. Em 1999 nascia o Projeto Vida Corrida.

O Projeto

No início, todo o dinheiro usado para que a iniciativa continuasse ativa era proveniente da própria Neide. Ela promovia rifas na comunidade com artigos doados e camisetas esportivas. O dinheiro arrecadado era todo usado para os gastos e manutenção do projeto.

Vida Corrida

Foto: Lucas Imbimbo

Neide se tornou uma empreendedora. “Eu costumo dizer que uma mulher que sabe administrar a sua casa, também consegue administrar uma empresa”, brinca Neide. Foram 10 anos no anonimato até que, em 2009, o jogo mudou.

Após ser convidada para correr uma edição da corrida Vênus – corrida exclusiva para mulheres organizada pela Iguana Sports – Neide participou de uma palestra realizada pela Nike a respeito de uma premiação ao melhor projeto esportivo de inclusão realizado por mulheres, o “Nike Game Changers”.

No final da apresentação, a locutora perguntou: “alguém conhece algum tipo de programa parecido?”. Neide então levantou a mão – lá do fundo da platéia – e respondeu “eu faço isso e muito mais”. Desse momento em diante, tudo mudou. O projeto Vida Corrida chamou a atenção da Nike que, mesmo com as inscrições já fechadas, deu um jeito de inserir a iniciativa no concurso.

“Eu não acreditava que poderíamos ganhar. São muitas pessoas famosas competindo. Quem votaria na Neide?”, diz. Ela criou um perfil na rede social e começou a pedir votos para os conhecidos da comunidade. Em 29 de maio de 2009, veio a resposta: o Vida Corrida havia ganho o Nike Game Changers.

Parceria para uma vida

“A primeira coisa que fizemos foi comprar um computador e abrir uma conta corrente”. No começo, a Nike ofereceu além da verba direta, um professor para dar as aulas. “Depois disso, meu objetivo era conquistar a marca”, conta Neide.

Seis meses se passaram e a Nike continuou com a parceria… Mais seis se passaram… Quando Neide se deu conta, ela já estava renovando contrato com a marca a cada dois anos. Em 2015 veio a maior proposta de todas: um contrato vitalício com a empresa esportiva. “Eu tremia! Passou um filme na minha cabeça”.

Hoje, o Vida Corrida é único projeto do mundo que possui contrato vitalício com a Nike. A marca oferece todo o suporte para as crianças e para organização – com equipamentos completos (camiseta, tênis de corrida etc.). ”Mesmo se um dia a Nike abandonasse o projeto, eu continuaria usando a marca para o resto de minha vida. Por gratidão”, diz Neide.

O Projeto Vida Corrida carrega um legado. São atletas que foram para o profissional, como Jonathan Santos, grande promessa para as Olimpíadas de Tóquio 2020; crianças que se tornaram professores após fazer parte do projeto. Neide sabe do impacto e da força do Vida Corrida. “Acredito que todo mundo pode mudar a vida de alguém. E eu estou tentando mudar a vida da minha comunidade”, diz.

Um dia no Vida Corrida

As atividades acontecem no Parque Santo Dias, na região sul de São Paulo. De segunda a sexta, às 7h, são realizados os treinamentos dos adultos. Às terças e quintas, às 8h e 14h, os para as crianças.

Vida Corrida

Professores do projeto. Alguns já foram alunos, como Lucas – primeira pessoa da direita. (Foto: Lucas Imbimbo)

Durante os treinos, as crianças são divididas de acordo com a faixa etária. Cada professor fica responsável por passar as atividades para as suas crianças de acordo com a capacidade de cada uma. Para entrar no projeto, é preciso ter paciência.

“Nós temos uma lista de espera grande”, confirma Neide. Ao serem chamadas, as crianças passam primeiro por um tempo de adaptação para depois serem oficialmente matriculadas e receberem os equipamentos da Nike.

No programa, são aceitas crianças de até 16 anos. Muitas delas acabam ficando no projeto, partindo para os treinos de adultos. Além da corrida, as atividades envolvem brincadeiras com bola e exercícios funcionais. “As crianças são o mais importante do Vida Corrida”, afirma.

Para o futuro, Neide tem o objetivo de construir a ‘Casa do Vida Corrida’. O projeto, que já está em andamento, tem o objetivo de formar uma sede e levar educação e arte para as crianças – além de ampliar o esporte. “Quero que as crianças escolham o esporte que querem praticar. Quero levar mais cultura para elas”, conclui Neide.