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The Finisher

A experiência de uma repórter em uma meia maratona inglesa

Marina Izidro, correspondente do Sportv em Londres, participou da Big Half e contou como é disputar uma prova na Inglaterra. Teve até "encontro" com o Mo Farah...

Redação WRunPor
Redação WRun

Correspondente do Grupo Globo em Londres, a repórter Marina Izidro participa das coberturas de alguns dos principais eventos esportivos do mundo. No último fim de semana, ela esteve em uma das meias maratonas mais tradicionais da Inglaterra, mas desta vez como participante. Marina relatou ao Sua Corrida como foi sua experiência na Big Half, prova vencida pelo britânico Mo Farah, que a deixou espantada por sua velocidade.

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Na manhã da Big Half Marathon, pensei: “Como o tênis totalmente impermeável que eu comprei para treinar no inverno de Londres foi um bom investimento!” Aqui, ele é fundamental. Poucas horas antes da largada, chovia muito. A chuva de Londres nunca é uma tempestade, como no Brasil. É fina, com vento, aquela que entra no olho, sabe? A gente se acostuma a treinar nessas condições, mas… tinha que chover assim logo hoje?

Na saída do metrô, coloquei o capuz do casaco de moletom e encarei a chuva, indo em direção ao caminhão onde eu ia deixar a mochila, junto com outras centenas de pessoas.

Eu já tinha feito outras meias maratonas na vida, mas seria a primeira em Londres, cidade onde eu moro há um ano e oito meses, e meu objetivo era correr pela primeira vez em menos de duas horas. A minha meia mais rápida até então havia sido em duas horas e seis minutos, em um calor de mais de 30 graus no Rio de Janeiro. Em Londres, o cenário era bem diferente, já que é raríssimo fazer 30 graus mesmo nos dias mais quentes do verão.

Naquela manhã de céu cinza, os voluntários sorridentes que indicavam o caminho tentavam aliviar a tensão pré-prova. Quando eu cheguei, uma hora antes da largada, “Sweet Caroline” tocava nos alto-falantes. É um clássico de Neil Diamond que escutamos aqui em lugares que vão desde provas de corrida a estádios de futebol.

Dependendo do tempo estimado de término, cada participante tinha uma letra correspondente ao local onde deveria se posicionar para a largada. Pelo tempo que eu previ na hora da inscrição, a minha onda de largada era a C. Deixei a mochila, passei no banheiro e fui para lá.

Como toda corredora precavida, comecei a fazer meu checklist. Fone de ouvido: no bolso. Banheiro: fui. Alongamento: feito. Gel: na mão. Enquanto cumpro o meu ritual pré-prova, gosto de observar o dos outros também. As pessoas se alongando, tomando gel, comendo alguma coisa, trocando de roupa, muitas colocando as camisas das suas equipes de corrida. Vi uma mulher comendo um sanduíche meia hora antes da largada! Achei meio pesado, mas cada um na sua.

Nesse momento de observação também me pergunto durante quanto tempo aquelas pessoas treinaram. Fico tentando adivinhar quem está na primeira meia maratona da vida ou quem já faz isso há anos. O fato é que, em uma prova daquela importância, a chuva não desanimaria ninguém.

Eu estava muito empolgada, mas tinha uma pequena insegurança sobre o meu tempo. É que, para essa meia, me preparei pela primeira vez sem treinador. Não pretendo fazer isso de novo. Não consegui achar alguém em Londres, acabei fazendo uma mistura de duas planilhas e juntando a experiência de treinos, nutrição e suplementação que adquiri em outras provas. Confesso que senti falta da troca entre aluno e treinador, da opinião profissional sobre qual era o meu limite físico, das palavras de conforto quando um treino não sai tão bem e na véspera da prova. Desta vez, fiz tudo praticamente sozinha, a parte física e a mental, trocando algumas ideias com a Natalie Gedra, uma amiga jornalista que está se preparando para correr uma meia.

Além disso, como a minha rotina de correspondente envolve muitas viagens de trabalho, é preciso treinar onde dá. Boa parte da minha mala nessas viagens era ocupada por roupas de corrida. No frio, não basta só um tênis e uma roupa qualquer. São calças e camisas térmicas, meias, casaco para barrar o vento, pescoceira, luvas, um gorro ou uma faixa para a cabeça. A parte boa é que isso acaba sendo um ótimo jeito de conhecer a cidade onde você está e te leva a fazer treinos diferentes. Como os percursos são novos, os treinos são muito motivadores. Entre os lugares inusitados, treinei em Malta e em Praga, capital da República Tcheca, sendo este último um longo com uma temperatura de 4 graus negativos e um visual deslumbrante.

Longão em Praga, na República Tcheca: muito frio e um visual de tirar o fôlego

Treino feito em Malta: viagens a trabalho não serviram como desculpa para furar a planilha

Essas experiências, os perrengues, as dores, os visuais bonitos, a falta de descanso, a “casca” adquirida… Tudo isso vem à cabeça minutos antes da largada. Passa um filme rápido enquanto você está ali, entre milhares de desconhecidos, cada um com uma história diferente, todos querendo o mesmo objetivo – terminar bem a prova. O pensamento foi quebrado pelo anúncio do locutor do evento: “Boas notícias, pessoal! Está fazendo onze graus!”

Era mesmo uma ótima notícia nessa época do ano. E melhor ainda ver que a chuva tinha parado e o sol abriu entre as nuvens, embora o vento tenha surgido. Tirei meu casaco de moletom, coloquei em uma espécie de caçamba e parti.

É legal ver como aqui eles se preocupam com sustentabilidade. Os organizadores pediram para que as roupas de frio descartadas fossem colocadas nesses compartimentos antes da largada. Assim, seria mais fácil juntá-las para doar para caridade ou recicla-las. Também avisaram que as garrafas de plástico seriam recicladas, pedindo que todos as esvaziassem antes de jogá-las fora durante a prova.

Logo no início, antes de chegar ao km 2, Mo Farah passou na direção contrária. O britânico era o principal nome entre os profissionais, que tinham largado mais cedo. Ele tinha uma passada tão larga que eu fiquei imaginando qual era sua cadência. Para alegria dos ingleses, Sir Mo venceu a prova em 1h01min40.

O percurso era bonito: começava perto da Tower Bridge, no Centro de Londres, e terminava na entrada do Greenwich Park. Era basicamente plano, com uma parte mais chatinha com paralelepípedos por volta do quilômetro 10. O ponto alto foi passar pela Tower Bridge, aquela icônica ponte de Londres. Olhar para o alto, de dentro da ponte, e ver uma construção tão linda e imponente desse ângulo era uma oportunidade única, já que naquele dia a ponte estava fechada para os carros.

A ventania durante quase a prova inteira não afastou o público. Alguns foram para as ruas torcer por familiares e amigos, mas muita gente foi porque gosta de corrida mesmo. Os londrinos adoram correr e também torcer. Um menino segurava um cartaz simpático no qual era possível ler “Good luck, random stranger!”, algo como “Boa sorte, ilustre desconhecido!”. Para entreter o público e os corredores, a organização colocou alguns corais de música pelo caminho, mas acabou cancelando algumas bandas de última hora por causa do vento forte.

Como eu corro escutando as minhas próprias músicas, nem ouvi qual era o estilo musical que eles estavam cantando. Fiquei feliz ao ver que estava me sentindo bem, mantendo o pace por volta de 5min20s, o que me faria terminar entre 1h52min e 1h54min. Depois do km 15, pelo menos pra mim, a força está toda na cabeça. O corpo já está dolorido e quer parar, o esforço é cada vez maior para manter a mesma velocidade. Na véspera da prova, eu estava lendo sobre como não deixar a dor virar uma pressão e usá-la a seu favor. Li em um site um corredor dizendo que usava o seguinte mantra: “Vai doer, mas tudo bem”. Ou seja, precisamos aprender que a dor faz parte do processo e que ela não vai te fazer parar.

No fim, completei a prova em 1h54h37min! Para quem pensava em fazer qualquer tempo abaixo de 2h, foi muito melhor do que eu esperava.

Medalha da Big Half: uma das recompensas após chegar ao tão sonhado sub-2h

Na chegada, havia um festival com comidas, música e atrações montado no Greenwich Park para quem quisesse aproveitar mais o domingo – e tivesse coragem para ficar na chuva. Eu tive que adiar a minha comemoração porque, poucas horas depois, teria que trabalhar. Jornalismo esportivo é assim mesmo.

No percurso de volta para casa, havia muitos corredores no metrô falando sobre a prova e sobre o que iriam fazer para aproveitar aquele restante de dia. E eu, que poucos meses atrás nem pensava em correr uma meia maratona de novo, me peguei imaginando: “Será que na próxima rola um sub-1h50 ou, quem sabe, sub-1h45?”. Cheguei a duas conclusões. A primeira é que, antes de uma prova, temos que enfrentar o medo e o importante é não desistir. E a segunda é que o bichinho da corrida, quando pica, realmente não sai nunca mais de nós.

Sorriso no rosto e pernas para o alto: cena familiar para todo corredor que alcança um objetivo em uma prova