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The Finisher

Uma maratona feita com o coração

Diogo Ferreira perdeu 70 kg com a ajuda da corrida e viveu grandes emoções em sua estreia nos 42,195 km 

Cesar Candido dos SantosPor
Cesar Candido dos Santos
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Foto: Fernanda Balster/ Fotop

“Quando suas pernas cansarem, corra com o coração.” A famosa frase motivacional resume perfeitamente a experiência do goiano Diogo Ferreira em seus primeiros 42,195 km, completados na SP City Marathon, realizada em 30 de julho. A conquista premiou uma história de grande superação.

O servido público de 35 anos começou a correr em 2015, para ter mais saúde. “Na época, eu pesava 160 kg e estava com pressão alta, pré-diabetes, pedra na vesícula e apneia do sono por conta da obesidade”, recorda Diogo. Ele foi alertado pelo médico que, se não emagrecesse, o risco de sofrer um infarto ou AVC era grande. “Minha mulher estava grávida e fiquei assustado com a ideia de não poder ver meu filho crescer. Por isso, decidi começar a fazer exercícios e buscar hábitos mais saudáveis.”

Diogo não esconde que o início foi difícil, nada prazeroso, pois ele sentia muitas dores nos joelhos e nas costas ao correr. “Mas, com o tempo, as pequenas conquistas foram aparecendo, o que me incentivou a continuar.” Após três anos, o atleta amador conseguiu eliminar cerca de 70 kg e completou diversas provas de 5 km, 10 km e 21,097 km. “Precisava de algo para me desafiar novamente e comecei a pensar se um ex-obeso mórbido seria capaz de correr 42 km. Essa dúvida ficou martelando na minha cabeça até o momento em que tomei coragem e me inscrevi na SP City Marathon.”

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A corrida transformou a vida de Diogo | Foto: Arquivo pessoal

O GRANDE DIA 

Como correu mais de 1.000 km durante o período de preparação, Diogo chegou confiante para a largada da maratona. O servido público superou a primeira parte da maratona sem dificuldades, curtindo o percurso. “Foi maravilhoso poder correr por pontos importantes de São Paulo, como o Theatro Municipal, o centro antigo da cidade, a Praça da Sé e o Parque Ibirapuera”, afirma. A subida da Av. 23 de Maio e o Túnel Jânio Quadros, trechos do trajeto que preocupavam muitos atletas, dificultaram um pouco a vida de Diogo, mas não foram um grande obstáculo.

A coisa só complicou quando o goiano entrou na Universidade de São Paulo, por volta do quilômetro 30. “Nesse momento bateu uma certa monotonia. Eu percebi que correr uma maratona não é somente um desafio físico, mas também mental”, revela. Para piorar a situação, o atleta começou a ter câimbras na panturrilha, que ficaram quase insuportáveis a partir do quilômetro 34. “As contrações faziam meu pé virar sozinho e comecei a tropeçar.”

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Não deu mais para correr e ele caiu no chão. Teve de sentar na calçada e aguardar a dor passar. “Vários maratonistas vieram me auxiliar nessa hora. Eles ofereceram água, balas de goma e me ajudaram a alongar a perna. Um corredor chegou até a passar spray na batata da minha perna, para aliviar a dor”, recorda Diogo. Só que nada disso resolveu.

Não demorou muito e uma pessoa da organização do evento apareceu, dizendo que iria chamar a ambulância para levar Diogo até o posto médico. “Fiquei desesperado, pois sabia que entrar no carro significaria o fim da maratona para mim. Então, falei: nada vai me tirar dessa corrida!”

Diogo começou a pensar em tudo o que havia passado para chegar até ali. Os problemas de saúde superados, a mudança de estilo de vida e o orgulho que sua família sentia devido a tamanha transformação. “Eles estavam torcendo por mim. Não podia decepcioná-los. Comecei a repetir mentalmente que a dor ia passar. Eu só precisava ficar em pé e caminhar um pouco, que a dor ir passar. ” O servidor público encontrou forças para se levantar e começou a andar. Seguiu em frente bem devagar, mancando bastante. “Eu sabia que a cada passo dado eu estava um pouco mais perto da linha de chegada, mais próximo do meu grande sonho.”

Ele caminhou entre os quilômetros 34 e 38, tropeçando todas as vezes que arriscava correr. Porém, de repente, a força nas pernas voltou e Diogo conseguiu trotar. “Foi como se eu tivesse recebido uma injeção de energia. Ali, tive a certeza de que completaria os 42,195 km e troquei a expressão de dor por um sorriso.”

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Foto: Mariana Faciulli/ Fotop

Os quatro quilômetros finais foram de pura emoção. “Decidi dedicar cada um dos 1.000 metros que faltavam para pessoas especiais na minha vida, como forma de homenagem a eles e também para distrair a cabeça”. Ele começou pensando em sua família, depois em sua esposa e no seu filho – que ainda na barriga da mãe foi um dos grandes responsáveis por Diogo mudar de vida e começar a correr. “Guardei o último quilômetro para mim, para refletir sobre tudo o que fiz.”

Quando entrou no Jockey Club, local onde estava a linha de chegada da SP City Marathon, Diogo Ferreira foi atingido por uma avalanche de emoções. O atleta sorria, gritava, corria e chorava ao mesmo tempo. “Repetia mentalmente sem parar: eu consegui, eu não desisti, eu consegui! Estava muito feliz por concretizar um sonho que certamente vai mudar minha vida.” Naquele momento, após muita dedicação, suor, sofrimento, superação e 5h36min36seg de corrida nasceu um novo maratonista. Um maratonista de coração forte!