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The Finisher

Corrida, viagem e saúde!

Após perder a avó, Ricardo Victalino de Oliveira começou a correr para emagrecer e cuidar do coração. Resultado: já secou 20 kg e conheceu muitos lugares do mundo fazendo provas

Élcio PadovezPor
Élcio Padovez
Ricardo perdeu 20 kg correndo pelo mundo

A Meia Maratona de Curacao é uma das corridas favoritas de Ricardo | Foto: Arquivo Pessoal

Muitas vezes, só percebemos que precisamos mudar completamente de vida após sofrer um grande choque. Com o advogado e professor Ricardo Victalino de Oliveira, 34 anos, foi assim. Em junho de 2014, ele estava quase 20 kg acima do peso e não se importava em ter hábitos saudáveis. Só se convenceu a começar a fazer exercícios e se alimentar melhor após perder a vó, Sunta, por problemas cardíacos.

“Durante o período em que ela ficou internada no Incor [Instituto do Coração, em São Paulo], eu recebia sempre a visita de um amigo, que trabalhava lá. Quando entrávamos na UTI, ele me alertava: ‘Todo mundo aqui está pagando a fatura por uma vida desregrada. É o coração. Se você não cuidar dele, ele vem cobrar a conta. Pense nisso’”, lembra Ricardo.

Em um primeiro momento, Ricardo não pensou… O alerta do amigo só ganhou força um tempo depois, quando o advogado viajou com a família para os Estados Unidos. Em uma semana, ele engordou 4 kg. De volta a São Paulo, beirando os 90 kg (para 1,72 m), Ricardo partiu em busca de um esporte que desse para encaixar na rotina e trouxesse prazer. Tentou futebol. Não deu certo. Musculação, achou um saco. Entrou na natação, mas os horários nunca batiam com a agenda. Foi aí que finalmente experimentou a corrida. “Comecei a correr em novembro de 2014 e logo me apaixonei pela modalidade, que me trouxe mais qualidade de vida e me ajudou a eliminar quase 20 kg.”

VIAJAR PARA CORRER
O progresso do advogado foi rápido. Em cinco meses ele já completou sua primeira meia maratona, no Rio de Janeiro. “Os 21,097 km ser tornaram minha distância favorita, pois exigem comprometimento nos treinos, mas não são tão desgastantes como uma maratona”, acredita. No momento em que as coisas pareciam estar no eixo, um novo choque. “Minha mãe, Sônia, foi diagnosticada com câncer quando ela, minha irmã e eu íamos para a Índia.” A viagem foi cancelada e Ricardo ficou muito mal com o problema da mãe. Precisava viajar e correr para contornar a situação. Por isso, começou a pesquisar o calendário de meias maratonas. “Achei uma prova em Fortaleza, mas a passagem aérea estava um absurdo. Continuei fuçando e encontrei uma corrida em Helsinki, na Finlândia. Com ajuda do Skyscanner, aplicativo de viagem, achei uma passagem barata para lá. Fiz minha inscrição e fui!” Daí, surgiu uma nova paixão do paulista nascido em Macaubal: viajar para correr. “Já visitei muitos lugares sem participar de provas e não achei tanta graça. Quando retornei ao país como corredor, a vivência foi incrível, cheia de adrenalina”, destaca.

Ricardo perdeu 20 kg correndo pelo mundoMUITAS HISTÓRIAS NA BAGAGEM
Grécia, Estados Unidos, Curaçao e Portugal foram só alguns dos destinos que Ricardo já foi para correr. De cada um deles, além de medalhas, sempre trouxe boas histórias para contar. Como a emoção de estrear em uma maratona na cidade de Atenas, berço da prova de 42 km. Ou a lembrança da primeira prova internacional que fez, na Finlândia, quando teve de enfrentar 39 graus de febre e contou com a companhia de um pacer inusitado. “Comprei um remédio na farmácia que nem o Google ajudou a traduzir a bula. Tomei morrendo de medo e corri bem devagar, grogue”, lembra. “Durante boa parte da prova, um senhor me acompanhou. Ele tentava se comunicar comigo e gesticulava o tempo todo. Eu não queira amizade e só concordava. Ao fim da corrida, o homem veio falar comigo. Escrevi em inglês, no meu telefone, que não entendia finlandês. Aí, o senhor me mostrou a seguinte mensagem no celular dele: ‘Ah, desculpe-me! Achei que você estava me entendendo. É que sou surdo e mudo…’”

A vergonha não foi nada perto do que aconteceu em Portugal, antes da Meia de Lisboa. Ricardo assume que não é dos atletas mais disciplinados e gosta de comer e beber bem antes das provas. Muitas vezes, vai até para a balada na véspera da corrida, como fez na capital portuguesa. “Cheguei às 5h da manhã no hotel. Cochilei e acordei atrasado para pegar o ônibus até a largada. Tinha 50 euros para gastar em toda a prova, chamei um táxi e ele me disse que a viagem custaria 15 euros. O problema é que ele errou o caminho e precisou dar uma volta gigante. E eu de ressaca, desesperado”. No fim, a corrida saiu por 80 euros, mas ele só pagou 50 euros. Pior: ao terminar a meia maratona, não tinha dinheiro para voltar ao hotel e teve de retornar andando, ainda levemente embriagado.

Ricardo perdeu 20 kg correndo pelo mundo

Ricardo fez sua estreia na maratona em Atenas, berço da prova de 42 km | Arquivo Pessoal

DIVERSÃO É FUNDAMENTAL
Para o advogado, a corrida precisa ser um prazer. Ele não faz provas em busca de melhores resultados, mas para se divertir. Esse lema, Ricardo segue também para escolher as cidades em que vai correr. O primeiro passo é montar uma planilha com as datas das provas nos lugares que deseja conhecer. “Costumo dar preferência para locais com passagens baratas e corridas que caiam próximas de feriados prolongados. Com planejamento, é possível correr em outros países sem gastar muito ou precisar tirar vários dias de férias.”

Para quem é corredor internacional de primeira viagem, o professor aconselha entrar em fóruns sobre corrida para checar os eventos com melhor organização. “Já participei de provas nas quais o trajeto mudou de última hora, sem qualquer aviso. Também corri no meio de uma favela e uma vez teve até um velório saindo justamente na hora da largada. Por tudo isso, é importante se organizar e estar pronto para contratempos e surpresas.” Outro conselho dele é buscar países em que a cultura e, principalmente, a alimentação, não sejam tão diferentes do Brasil.

PRÓXIMAS ROTAS
Em 2017, os planos de voo de Ricardo seguem a todo vapor. Ele acabou de completar a Meia Maratona de Miami (EUA), realizada no último domingo (29/01). Os próximos objetivos são Tel Aviv (Israel), Madri (Espanha) e Cidade do Cabo (África do Sul). O advogado também pretende voltar a fazer a Meia de Curaçao uma de suas provas favoritas.